Discussão – Cracolândia

Há algumas semanas tem sido discutido sobre o que fazer com a cracolândia e seus frequentadores.

Muita briga política e ideologias enviesadas, além de informações erradas divulgadas pela mídia, faz com que ninguém consiga ajudar efetivamente os dependentes químicos que ali residem.

Não há mínima dúvida de que as ações até agora vigentes eram completamente insuficientes ou incapazes de resolver o problema chamado cracolândia. E não há mínima dúvida de que era necessário ser tomado alguma ação para não permitir a manutenção de uma situação totalmente desumana ao céu aberto.

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No entanto, o problema maior na ação realizada nesta gestão foi juntar três objetivos em uma única abordagem:

1- Revitalização do local
2- Controle do tráfico
3- Cuidado aos dependentes químicos

Primeiro é necessário acabar com o tráfico, depois realizar acolhimento aos dependentes químicos e em seguida realizar a revitalização do local.

Não tem como fazer tudo ao mesmo tempo e em uma única abordagem. Os policiais estarão tensos com os traficantes e do mesmo jeito que iriam abordar o suspeito, abordariam os possíveis pacientes dependentes químicos. E aí sim seria uma abordagem que desrespeita os direitos humanos.

No entanto, a abordagem de pacientes intoxicados ou alterados no nível de consciência pela PM e pelo SAMU de forma involuntária está completamente dentro da lei e dentro da ética como cidadão com dever de ajudar o próximo em situação de risco. Esses pacientes são levados constantemente aos pronto socorros mais próximos para uma desintoxicação breve, necessitando de uma internação mesmo que seja involuntária devido ao risco de vida.

Não estamos discutindo nesse momento a validade da internação involuntária de pacientes usuários conscientes e lúcidos. A questão é salvar a vida dos pacientes com dependência química grave, com desnutrição e possível infecção e complicações clínicas com sobrevida de 6 meses caso continue nessa situação. Isso não é desrespeitar o direito humano.

Desrespeitar o direito humano é aceitar que existe um ponto de tráfico conhecido por todos sem ter uma conduta policial, é aceitar que pessoas morrem em um local conhecido por todos e achar que uma conversa social iria ajudá-los a sair dessa dependência pelo crack.

Se você neste exato momento pudesse escrever uma carta que autorizasse ou não a sua internação involuntária caso por alguma razão você passasse a ser um dependente químico grave e morador da cracolândia, o que você escreveria? Gostaria ou não que fosse internado?

Ou se algum familiar seu estiver sofrendo com o crack e estivesse morando na cracolândia, você impediria que a polícia o abordasse para uma internação involuntária?

Sim, ainda há muito o que fazer e corrigir sobre a abordagem atual na cracolândia.

Mas o primeiro passo foi dado. Que venha o segundo e o terceiro até solucionarmos esse problema social.

Dr. Thomas Katsuo Ito